nquanto o discurso oficial da modernização administrativa segue forte nos palanques e eventos institucionais, a realidade enfrentada por milhares de servidores públicos do Pará revela um cenário bem diferente: a política de qualificação profissional do Estado parece ter parado no meio do caminho.

A situação da Escola de Governança Pública do Estado tem provocado críticas crescentes entre servidores estaduais e municipais que tentam acessar cursos de capacitação e encontram mais obstáculos do que soluções.
O problema não está apenas no conteúdo ofertado, mas principalmente no modelo adotado e na incapacidade de expansão de uma política pública que deveria alcançar os 144 municípios paraenses.
Portas fechadas
A principal reclamação envolve justamente o ambiente virtual de aprendizagem. Servidores relatam instabilidade frequente no portal utilizado para cursos a distância, além de dificuldades de acesso e interrupções constantes.
Para quem está fora da Região Metropolitana de Belém, o impacto é ainda maior. Em muitos municípios do interior, onde o acesso presencial é praticamente inviável, a modalidade online deveria ser a principal ferramenta de inclusão e democratização da capacitação pública. Não é isso que vem acontecendo.
Além das falhas técnicas, usuários apontam desorganização no ambiente virtual e pouca clareza sobre os próprios cursos ofertados pela escola. Há casos em que o servidor entra na plataforma e encontra conteúdos de outras instituições, sem identidade própria da Escola ou linha pedagógica claramente definida.
Na prática, o que deveria funcionar como uma universidade corporativa do Estado acaba operando mais como um repositório improvisado de conteúdos.
Capacitação para poucos
Outro ponto que chama atenção é o alcance limitado da política de formação. Embora o Pará possua dimensões continentais e uma máquina pública espalhada por centenas de órgãos e municípios, a lógica predominante ainda gira em torno de cursos presenciais ou híbridos concentrados em Belém.
Isso significa gasto com auditórios, deslocamentos, diárias, estrutura física e logística de professores e alunos – um modelo caro e de baixo alcance num Estado onde muitos servidores sequer conseguem sair do município onde trabalham. A crítica é direta: investe-se muito para atingir pouca gente.
A consequência é previsível. Enquanto uma pequena parcela consegue participar das capacitações presenciais, a maioria permanece dependente de plataformas instáveis, vagas limitadas e cronogramas rígidos que ignoram a rotina real do serviço público.
O grande paradoxo
O cenário expõe um paradoxo constrangedor. O mesmo Estado que cobra transformação digital, eficiência administrativa e atualização constante dos servidores ainda não conseguiu estruturar plenamente sua própria política de ensino remoto. Em tempos de inteligência artificial, plataformas adaptativas e ensino assíncrono, a qualificação pública paraense ainda opera sob uma lógica burocrática e centralizada, incompatível com a velocidade exigida pela gestão contemporânea.
Especialistas em administração pública ouvidos pela coluna avaliam que a questão já deixou de ser apenas pedagógica e passou a ser estratégica. Sem capacitação contínua e acessível, a máquina pública perde eficiência, reduz capacidade técnica e amplia desigualdades entre capital e interior.
Pergunta que fica
O debate inevitavelmente leva a outra questão: onde estão sendo aplicados os recursos destinados à formação e aperfeiçoamento do funcionalismo público? A crítica não recai necessariamente sobre a existência de investimentos, mas sobre a efetividade deles.
É que, na ponta, o servidor continua enfrentando dificuldade para acessar cursos básicos, atualizar competências e participar de processos modernos de formação profissional – e isso num Estado que, oficialmente, defende inovação, transformação digital e integração regional. No fim das contas, a sensação entre muitos servidores é simples: a modernização da gestão pública ainda não chegou à própria escola responsável por ensinar modernização da gestão pública.

