Oswadeliz del Carmen Nuñez Ramirez, 58, falou com seu filho por telefone pela última vez há uma semana por breves quatro minutos. Foi quando descobriu que ele estava na Venezuela após ser deportado pelos Estados Unidos.
Meia hora depois, dois terremotos gêmeos atingiram o país. E o filho da advogada venezuelana natural de El Tigre, em Anzoátegui, estava em um dos prédios que desabaram no estado de La Guaira. Junto a ele, outros 145 venezuelanos, entre adultos e crianças, que vieram no mesmo voo.
Eles haviam sido levados pelo Estado para o local, que usualmente acolhe usuários de drogas e pessoas em situação de rua e foi transformado em base para receber os imigrantes retornados. Oswadeliz começou então um calvário em busca “do seu menino”, Daniel Alejandro, 28.
Ela conversou com a reportagem sentada no chão de um apartamento sem mobília que lhe foi emprestado em Caracas, para onde viajou para buscar o filho. A seu lado, as cinzas de Daniel em uma pequena caixa de madeira.
Oswadeliz afirma ter recebido informações desencontradas do Estado, não ter recebido apoio e ter lutado, praticamente sozinha, para encontrar o corpo de Daniel. A seguir, ela registra a história de seu primogênito.
Meu filho era muito inteligente. Nunca tive que ajudá-lo com as tarefas da escola, porque ele fazia tudo sozinho. Só boas notas. Queria ir à universidade, mas viu que os profissionais aqui na Venezuela eram muito mal remunerados. Então decidiu ir ao Peru. Ficou quatro anos. Mas aos 24 anos decidiu ir aos EUA, em 2022. Entrou pela fronteira com o México. Cometeu esse delito.
Começou a trabalhar, primeiro em Orlando, depois foi a Jacksonville, na Flórida. Trabalhava em tudo o que podia. Recentemente ele estava preocupado com a perseguição aos imigrantes nos EUA. Tinha um pedido de asilo em tramitação, mas estava com medo, e pensava em voltar em julho.
Então, em 10 de maio, dia das mães na Venezuela, detiveram-no. E ali começou o nosso calvário.
Tinha pouquíssima comunicação com ele. Para a fiança e os advogados, ele precisava de US$ 15 mil. Fiz uma campanha online. Mas não consegui. Hoje penso que se tivéssemos conseguido esses US$ 15 mil meu filho estaria vivo. Tantas coisas que me vêm à cabeça.
Ele passou por quatro prisões, até que chegou ao Texas. Me ligou no dia 23: “Mamá, acho que me deportam nos próximos dias”. Mas a missão Vuelta la Patria [para receber os deportados na Venezuela], nunca me disse que ele estava vindo.
Então no dia 24, às 17h25, ele me liga em uma chamada de quatro minutos que dou graças a Deus por ter ocorrido, porque do contrário eu não teria falado com meu filho e não saberia que ele estava na Venezuela. Me disse que havia chegado havia algumas horas, ao meio-dia. Me disse que estava em um hotel e que no dia seguinte o trariam para casa, mas não lembrava o nome do hotel.
Dali a meia hora houve os terremotos. E nunca mais me comuniquei com ele.
Então começamos a perguntar na página de Vuelve a La Patria. Nunca nos disseram nada.
Decidi ir a Caracas buscar meu menino, porque o governo não me diz nada. É a indolência total.
Chegamos na sexta-feira à tarde. Percorri todos os hospitais, e nada. Pela noite, fomos a La Guaira. E nada. Um dos membros do Sebin, o serviço de inteligência, me dizia que tinha ele próprio tirado meu filho dos escombros. Me deixei levar pela emoção e acreditei. Busquei meu filho por todos os hospitais e clínicas da região. Nada. Foram mais dois dias.
Veja local para onde deportados foram levados antes e depois dos terremotos na Venezuela
Imagem de satélite do chamado Hotel Santuario em Macuto, no estado de La Guaira, mostra construção colapsada
– Vantor via Reuters
Na segunda-feira, me disseram na missão Vuelta la Patria que não queriam dar informações por telefone porque isso seria duro demais. Eu disse: “Duro é uma mãe estar buscando seu filho por cinco dias, até debaixo de pedras, e não saber onde ele está; não irei embora até saber onde está meu filho. A primeira expectativa é conseguir meu filho vivo. Caso não, não saio daqui sem o cadáver do meu filho”.
Podiam ter nos avisado qualquer coisa. Mas não. Tivemos que vir nós mesmos buscar entre as pedras. Quase não havia máquinas no resgate. Então comecei a gravar vídeos no Instagram, no TikTok. E então meu filho apareceu. Na segunda-feira, no final da tarde.
Eles nos disseram que estava no Bolipuerto [o necrotério a céu aberto em La Guaira]. Tive que fazer reconhecimento físico. E ali entendi que meu filho morreu no primeiro dia. Estava irreconhecível. O reconheci pela tatuagem no braço esquerdo. Sempre disse a ele que não gostava de tatuagens, mas graças a Deus que ele a tinha, porque sem ela não poderia ter reconhecido o corpo.
Ali uma médica forense me disse: “Eu recomendo à senhora que tire o corpo do seu filho daqui hoje, porque estão perdendo corpos”. E eu já ouvi histórias assim. Outro dos mortos do mesmo voo foi identificado pela família e depois desapareceu. Extraviaram o cadáver.
Daniel foi filho único por 13 anos. Tenho outro menino de 15. Mas digo a ele: “Filho, não sei se vou poder aguentar essa dor. Se sua mãe morrer, me perdoe”.
É muita dor.
Peço que a comunidade internacional venha entender por que o colocaram nesse lugar. Por que esse lugar caiu e vários ao redor não. Na Venezuela aqueles que migram já são considerados delinquentes. Você chega ao seu país para ser tratado como um cachorro? Eu poderia ter ido retirar ele no aeroporto. Ele não tinha antecedentes criminais. Hoje ele estaria vivo.

