Se as estatísticas divulgadas pelo grupo ultratradicionalista católico Fraternidade São Pio 10º estiverem corretas, os 600 mil fiéis que frequentariam suas missas com regularidade equivalem a uma única diocese (a área de jurisdição de um bispo) de tamanho médio no Brasil —só o território do estado de São Paulo tem mais de 30 dioceses.
Assim, tanto a consagração simultânea de quatro novos bispos para a fraternidade quanto a ideia de que seu crescimento à revelia do Vaticano representaria uma ameaça contra a unidade do catolicismo parecem, à primeira vista, bastante superdimensionados. A rigor, aliás, o episódio da escolha dos bispos contra ordens expressas do papa tampouco é novo.
Afinal de contas, foi a mesma situação —no mesmo lugar, Écône, na Suíça, e com o mesmo número de prelados envolvidos— que motivou a primeira excomunhão da chefia do movimento, a começar por seu fundador, o arcebispo francês Marcel Lefebvre, em 1988, durante o papado de João Paulo 2º.
Na época, participou da cerimônia o bispo aposentado da diocese de Campos (RJ), Antônio de Castro Mayer, que também morreu em 1991. Depois de décadas de conversas infrutíferas entre os dois lados, houve apenas um retorno ao status quo do fim do século 20.
Feitas essas ressalvas, é possível entender a preocupação e os apelos à unidade emitidos pelo papa Leão 14 sob dois prismas, um mais eclesiológico (ou seja, segundo a lógica interna da Igreja Católica), outro mais ligado ao contexto cultural e político desta década.
Considerando o primeiro desses fatores, a unidade dos fiéis sob a autoridade de um único pontífice tem sido um dos elementos definidores da identidade católica há pelo menos um milênio. Paradoxalmente, mesmo com os processos de modernização da Igreja, o direito do papa de determinar quem serão os bispos se tornou uma prerrogativa cada vez mais exclusiva dele.
Na virada do século 19 para o 20, por exemplo, o clero de países como a Alemanha ainda tinha voz na escolha episcopal em certas dioceses, ou ainda era preciso negociar com o governo civil para que um candidato fosse aprovado, o que seria impensável hoje.
O irônico é que esse processo de concentração cada vez maior do poder decisório nas mãos do papa se deu num contexto de reação conservadora da hierarquia católica à modernização da política e dos costumes, entre os pontificados de Pio 9º a Pio 12 (grosso modo, de meados do século 19 a meados do século 20).
Não é por acaso que a fraternidade ultratradicionalista escolheu um dos pontífices dessa lista, Pio 10º, proclamado santo em 1954, como seu patrono. O grupo, assim, é herdeiro de uma tradição defensora da máxima autoridade papal, embora a esteja desafiando há mais de 50 anos.
Embora a feição mais visível da discordância entre a Fraternidade São Pio 10º e a grande maioria do clero e dos leigos católicos seja o apego do grupo à missa celebrada em latim, com o sacerdote voltado para o altar e de costas para os fiéis, há questões de maior substância por trás da celeuma.
Os membros da fraternidade rejeitam todos os esforços reformistas do Concílio Vaticano 2º (1962-1965), mais importante encontro do catolicismo dos últimos cem anos. O concílio permitiu, entre outras coisas, um diálogo menos autoritário entre a Igreja e as demais comunidades cristãs e uma abertura às outras religiões —deixando de lado, por exemplo, o antissemitismo abraçado por setores católicos até a Segunda Guerra Mundial—, além de possibilitar que os católicos aceitassem sem reservas as ideias de democracia e direitos humanos num contexto não religioso.
A fraternidade pode não ser sedevacantista (ou seja, não abraça a ideia de que o trono papal está vazio porque os papas posteriores ao concílio teriam traído a fé, como dizem grupos ainda mais radicais). Mas suas posições são um desafio frontal a grande parte do que o papado tentou construir com o Vaticano 2º.
E, apesar de sua relativa insignificância numérica, ela incorpora o tipo de “catolicismo estético” que apela aos segmentos mais radicalizados da extrema-direita global.
Na lista dos seduzidos por esse apelo de suposta imutabilidade histórica e superioridade cultural da “verdadeira Igreja” estão movimentos difusos como o olavismo brasileiro e recém-convertidos à fé católica como o vice-presidente americano J. D. Vance.
Como mostraram os conflitos de Leão 14 com Trump, é uma visão muito distante da que o papa atual tem para sua fé. O conflito, assim, torna-se inevitável.

