Um estudo conduzido por cientistas brasileiros revelou que a prática excessiva de exercícios físicos pode alterar a regulação química do cérebro, especificamente na região do hipocampo, que está ligada à memória e ao controle emocional. Publicada em outubro na revista Neurosciense, a pesquisa teve Alisson Luiz da Rocha e João Pedro Floriano como primeiros autores e foi desenvolvida em parceria entre a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Os pesquisadores investigaram a sinalização monoaminérgica no hipocampo, focando na dopamina e na serotonina, quando o corpo é submetido a esforços físicos extremos, seja em uma única sessão exaustiva ou após meses de treinamento excessivo. Os resultados apontam que os níveis de serotonina permaneceram estáveis, enquanto a dopamina apresentou oscilações significativas.
Segundo o estudo, essa variação na dopamina pode explicar episódios frequentes de insônia, hipervigilância e recuperação deficiente observados em atletas com sobretreinamento, já que o neurotransmissor promove estado de alerta no sistema nervoso central. Além disso, ao cruzar dados genéticos, os cientistas notaram que a produção excessiva de dopamina está associada ao aumento da inflamação cerebral, tornando os animais mais ansiosos e com perda de coordenação motora.
A experimentação utilizou camundongos machos divididos em dois protocolos: um agudo, com exercício até a exaustão, e outro crônico, com oito semanas de treinamento progressivo. No grupo agudo, houve um aumento substancial de dopamina imediatamente após o esforço, seguido por uma queda na capacidade do cérebro de fabricar mais desse neurotransmissor. Já no grupo crônico, o rendimento físico caiu a partir da quarta semana e os níveis de dopamina permaneceram elevados durante a fase de repouso.
Os autores destacam limitações importantes: a medição da dopamina foi feita no tecido cerebral como um todo, sem detalhar a velocidade de uso nas conexões nervosas; os testes envolveram apenas machos; e as ligações entre inflamação e comportamento partiram de análise de banco de dados, exigindo testes laboratoriais diretos para confirmação definitiva.



