Um novo relatório produzido pela International Cryosphere Climate Initiative (ICCI) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) alerta que, se a temperatura do planeta ultrapassar 1,5 °C, ocorrerão perdas irreversíveis no gelo da Terra. O documento, elaborado por mais de 80 cientistas especializados em regiões polares e montanhosas, analisa o fenômeno conhecido como 'overshoot', que consiste em elevar a temperatura acima do estipulado pelo Acordo de Paris por um período antes de tentar resfriar o planeta.
Os pesquisadores apontam que essa estratégia é um mito e que o derretimento do gelo global será inevitável caso o limite seja ultrapassado. Entre as consequências estão a elevação do nível do mar entre 50 centímetros e 1 metro até 2100, a dessanilização dos oceanos e a intensificação de eventos climáticos extremos. O descongelamento do permafrost também deve liberar grandes quantidades de CO2, agravando ainda mais o aquecimento global.
O estudo indica que o Ártico poderá enfrentar verões sem gelo no pico do overshoot, com recuperação atrasada por décadas ou séculos devido ao calor armazenado nos oceanos. Além disso, a redução das 'torres de água' glaciais pode comprometer o abastecimento hídrico de diversas regiões e aumentar desastres naturais súbitos, como inundações causadas pelo derretimento rápido do gelo.
Os cientistas defendem que governos adotem medidas urgentes para manter o aquecimento abaixo de 1,5 °C e evitar o overshoot. A transição energética é apontada como primordial, exigindo que as nações acelerem a saída dos combustíveis fósseis para atingir emissões líquidas zero até meados deste século. Também é prioridade reduzir drasticamente as emissões de metano e fuligem ligadas ao desmatamento e à pecuária no curto prazo.
O relatório sugere ainda iniciativas para retirada de carbono da atmosfera, mas alerta que o mercado de carbono não deve ser usado como desculpa para continuar poluindo. Caso a meta de 2015 seja alcançada, 54% do gelo glacial poderia ser preservado. Os especialistas exigem que a criosfera seja incorporada explicitamente nas negociações climáticas da ONU, com destaque para a próxima COP, marcada para 9 a 20 de novembro em Antália, na Turquia.


