Em novo capítulo da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos, a O rganização Mundial do Comércio (O MC) acolheu oficialmente o pedido brasileiro para iniciar consultas formais sobre as tarifas de 25% e 12,5% impostas sobre uma série de produtos nacionais, em processo que se desenrola na esteira de medidas protecionistas adotadas por Washington desde 2018, com a fase de diálogos prevista para ocorrer nesta sexta‑feira (25/9), enquanto a China viu-se impedida de intervir no debate, tendo seu pedido de participação recusado pelos EUA sob o argumento de ausência de interesse comercial substancial.
Contexto Institucional e Estratégico da Controvérsia
A abertura do processo na O MC, protocolada em 27 de julho de 2024 pelo governo brasileiro, constitui a primeira tentativa institucionalizada de contestar as barreiras tarifárias impostas pelos Estados Unidos, que abrangem produtos que somam bilhões de dólares em valor comercial anual, e representa um marco na política externa econômica do presidente Lula, que tem articulado uma agenda multilateral voltada à defesa do livre‑comércio frente ao espectro crescente do protecionismo norte‑americano.
Nos últimos meses, a China manifestou interesse em intervir nas consultas bilaterais entre Brasil e EUA, alegando que a disputa afetaria diretamente seus interesses comerciais na região da América Latina; entretanto, Washington rebateu o pedido com base em critérios da própria O MC, que exigem demonstração clara de interesse substancial por parte do terceiro país, condição que, segundo o representante dos EUA, não foi adequadamente comprovada nos documentos submetidos pela Pequim.
A recusa chinesa ocorre num cenário em que a própria O MC tem reforçado a necessidade de manter a transparência nas negociações multilaterais e evitar que atores externos dilapidem o foco do processo sobre as partes diretamente envolvidas.
A O MC recebeu formalmente o pedido brasileiro para contestar tarifas que somam mais de US$ 4 bilhões em comércio anual.
Repercussão Jurídica e Próximos Desdobramentos
O governo brasileiro informou estar plenamente preparado para avançar para a próxima etapa do mecanismo de solução de controvérsias da O MC – a constituição de painel técnico – caso as consultas presenciais desta sexta‑feira não resultem em concessões efetivas ou redução das tarifas, prevendo inclusive a possibilidade de solicitar o estabelecimento do painel dentro do prazo de 60 dias pós‑consulta.
O embaixador Carlos França, representante permanente do Brasil perante a O MC, declarou que "a continuidade do diálogo constrói pontes para a estabilidade do comércio bilateral" e ressaltou que "o respeito às regras multilaterais é imprescindível para evitar escaladas desnecessárias no âmbito comercial", enquanto o Departamento de Estado dos Estados Unidos reiterou sua disposição para "engajar-se construtivamente nas negociações", sem, contudo, indicar abertura para concessões tarifárias.
A reunião desta sexta‑feira terá como foco principal o intercâmbio técnico entre as delegações dos dois países, com a participação de diplomatas seniores e especialistas em comércio exterior, numa atmosfera marcada pela cautela diplomática e pela expectativa de que eventuais desacordos possam ser mitigados por soluções graduais antes da eventual abertura formal do painel.



