Duas mulheres afirmaram à Polícia Civil que policiais militares entraram sem autorização em uma residência em Piracicaba, no interior de São Paulo, retiraram camisetas do PT do imóvel e mandaram três homens detidos vesti-las. Os relatos constam em um boletim de ocorrência registrado na quinta-feira (22), um dia depois da abordagem que ganhou repercussão após a divulgação de imagens dos suspeitos usando camisetas brancas com mensagens de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Segundo os depoimentos, os policiais exigiram que as mulheres entregassem camisetas semelhantes às que vestiam durante uma atividade política na Comunidade Vitória Pantanal. Uma delas afirmou ter sido atingida por um chute na perna. As duas também relataram ofensas e ameaças durante a abordagem.
De acordo com o boletim, uma das mulheres contou que os policiais pediram cinco camisetas. Diante da informação de que elas não tinham outras peças disponíveis, os agentes foram até a residência. Ela afirmou que eles entraram no imóvel sem autorização e voltaram com duas camisetas, que teriam sido entregues aos homens abordados.
Os relatos também apontam que os policiais teriam mandado os detidos vestir as peças e feito comentários sobre o número de votos que o presidente Lula receberia na eleição. As mulheres disseram que as camisetas eram iguais às que aparecem nas imagens divulgadas nas redes sociais.
Uma das declarantes afirmou ainda que um policial a ameaçou, dizendo que ela poderia ser presa caso continuasse falando sobre o ocorrido. Segundo o documento, as mulheres relataram medo de voltar para casa e disseram estar preocupadas com a segurança dos filhos.
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O boletim foi registrado como de autoria desconhecida e menciona, entre as naturezas da ocorrência, ameaça, constrangimento ilegal e abuso de autoridade.
O registro documenta as declarações das mulheres, mas as acusações ainda precisam ser apuradas.
Polícia abriu investigação preliminar
A abordagem ocorreu na quarta-feira (21), na Comunidade Vitória Pantanal. Na ocasião, dois homens, de 21 e 24 anos, foram presos, e um adolescente de 17 anos foi apreendido por suspeita de envolvimento com o tráfico de drogas.
A SSP-SP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo) informou que o Comando de Policiamento de Área 9, responsável pela região de Piracicaba, abriu uma investigação preliminar para apurar possíveis irregularidades na atuação dos policiais militares.
A Ouvidoria da Polícia de São Paulo também acionou a Corregedoria da PM e pediu o afastamento dos agentes identificados do serviço operacional até a conclusão das apurações. O pedido não significa que o afastamento já tenha sido efetivado.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública solicitou esclarecimentos à SSP, à Corregedoria da PM e à Ouvidoria das Polícias. A pasta também pediu a preservação de possíveis provas, incluindo imagens de câmeras corporais e de viaturas, gravações de chamadas ao 190 e registros operacionais.
Caso ganhou repercussão após divulgação de vídeo
O caso veio a público depois que o senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP) publicou imagens dos três detidos usando camisetas idênticas com mensagens de apoio a Lula e referências à Apeoesp, sindicato dos professores da rede pública paulista. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também republicou o conteúdo.
A mãe do adolescente de 17 anos já havia afirmado à CNN que o filho saiu de casa usando uma regata azul e que, quando o viu novamente durante a abordagem, ele vestia uma camiseta branca. Ela também relatou agressões contra o adolescente e disse que a filha, de 14 anos, teria sido atingida no peito por um policial.
O PT acionou a Procuradoria-Geral Eleitoral para pedir a investigação de possíveis crimes eleitorais relacionados à abordagem e à divulgação das imagens.
A SSP afirmou que não compactua com desvios de conduta e que pune os casos comprovados. As circunstâncias da abordagem, a origem das camisetas e a eventual responsabilidade dos policiais deverão ser esclarecidas pelas investigações.



