Em meio a uma investigação que atravessa mais de R$ 170 milhões em movimentações financeiras desde 2024, a produtora Karina Gama, responsável pelo filme Dark Horse e figura central da apuração sobre o financiamento da obra, mantém postura inédita ao recusar-se a fornecer à Polícia Civil de São Paulo a senha do seu celular, único dispositivo eletrônico apreendido em operação realizada no dia 1º de junho na residência localizada no Parque São Luís, zona norte da capital paulista.
Contexto Institucional e Evidências Documentais da Apuração
A Polícia Civil de São Paulo, após meses de monitoramento e diligências coordenadas pelo Departamento de Investigativa de Crimes Financeiros (DICF), realizou buscas e apreensões em três endereços vinculados à produção audiovisual: o escritório da Go Up, na Avenida Paulista; o Instituto Conhecer Brasil (ICB), com contrato de R$ 108 milhões com a prefeitura de São Paulo; e a residência particular de Karina Gama no Parque São Luís. Apesar da expressiva movimentação financeira – superando R$ 170 milhões desde 2024 – nenhum equipamento computacional foi localizado nos locais fiscalizados, gerando estranheza entre os investigadores. O único objeto eletrônico apreendido foi um iPhone pessoal pertencente à produtora, cuja perícia permanece inconclusiva há mais de 100 dias, em razão de falhas documentadas na cadeia de custódia.
O s registros bancários e fiscais indicam que recursos originários da produção fílmica, do contrato de prestação de serviços de wi-fi com a prefeitura e de editais da Academia Nacional de Cultura foram movimentados por empresas ligadas à Gama, como a Go Up e ao ICB. No entanto, a ausência de dispositivos digitais – mesmo após varredura minuciosa dos endereços – sugere possível ocultação sistemática ou uso alternativo de mídias físicas e intermediários não rastreados pela perícia digital.
Mais de R$ 170 milhões em movimentações financeiras foram apurados sem que nenhum computador tenha sido localizado nos endereços investigados.
Repercussão Jurídica e Desafios na Cadeia de Custódia
A recusa explícita da defesa técnica em fornecer a senha do aparelho celular configurou nova etapa na escalada processual, acionando o advogado Márcio Sayeg, que ingressou no local minutos após a abordagem policial e orientou Gama a manter silêncio até a formalização do boletim de ocorrência. A Polícia Científica se recusou categoricamente a periciar um lote com 15 dispositivos devido à irregularidade na lacração dos sacos com folga suficiente para permitir a inserção de cabo USB, comprometendo a integridade forense dos equipamentos apreendidos.
O ministro do STF Flávio Dino determinou que os relatórios periciais fossem encaminhados ao tribunal após solicitação da Procuradoria-Geral da República, mas os únicos três aparelhos efetivamente analisados seguem em formato proprietário detido por empresa israelense, inacessível ao controle judicial comum. Enquanto o Ministério Público Federal analisa denúncia por possível lavagem de ativos e sonegação fiscal, o caso já mobiliza especialistas em segurança digital alertados para os riscos de manipulação forense em operações com lacração comprometida.



