Após a reeleição do presidente brasileiro, líderes políticos da Espanha passaram a usar a mobilização eleitoral no Brasil como referência. Especialista explica por que a combinação entre redes sociais e manifestações nas ruas despertou interesse fora do país.
A mobilização que marcou a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais de 2026 começou a ganhar repercussão fora do Brasil. Na Espanha, políticos de esquerda passaram a citar a vitória do presidente brasileiro como exemplo para a disputa eleitoral marcada para 29 de novembro. Além das manifestações públicas de apoio a Lula, a estratégia digital organizada pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) também chamou atenção da imprensa internacional e pode chegar à campanha do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez.
O interesse ficou evidente em discursos de lideranças espanholas e em vídeos que circularam nas redes sociais nos últimos dias. Para o professor Mário Tito Almeida, doutor em Relações Internacionais, a repercussão está ligada à forma como a campanha brasileira conseguiu unir a comunicação pela internet à participação de apoiadores nas ruas.
Ada Colau pede gesto do “L” durante ato na Espanha
No domingo (25), a ex-prefeita de Barcelona Ada Colau participou de um ato político em Móstoles, na região de Madri. Candidata pelo Frente Amplio, uma coalizão de esquerda, ela comparou a disputa eleitoral espanhola à brasileira e pediu que os participantes fizessem o gesto do “L” com as mãos, em apoio a Lula.
“Hoje, no Brasil, acontece a mesma luta que nós enfrentaremos em 29 de novembro”, declarou Colau, em tradução do espanhol.
Durante o discurso, ela afirmou acreditar que Lula venceria o que chamou de fascismo e pediu uma fotografia coletiva com os participantes fazendo o gesto associado ao presidente brasileiro. “Todos levantem os braços com o L de Lula. Pela esperança!”, disse.
O momento foi registrado em vídeo e repercutiu nas redes sociais. Durante a manifestação, realizada no mesmo dia do segundo turno no Brasil, Colau demonstrou apoio a Lula. Na segunda-feira (26), após a confirmação da vitória do presidente brasileiro, ela voltou a se manifestar, comemorando o resultado e relacionando a eleição à disputa política na Espanha.
Pedro Sánchez também usa eleição brasileira como referência
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), também citou o Brasil ao falar sobre a importância da participação dos eleitores na votação de novembro.
Em um discurso, Sánchez defendeu a mobilização em torno de pautas como os direitos dos aposentados, a igualdade entre homens e mulheres e os direitos da população LGBTQIA+. Ao final, fez uma comparação direta com o resultado brasileiro.
“Vão votar no próximo dia 29 de novembro, como aconteceu no Brasil. Se o Brasil conseguiu, a Espanha também pode”, afirmou, em tradução do espanhol.
Sánchez também comemorou a reeleição de Lula nas redes sociais. Em publicação feita na segunda-feira (26), declarou que o resultado brasileiro poderia se repetir na Espanha.
Estratégia de Janones chama atenção fora do Brasil
A repercussão internacional não ficou restrita aos discursos. A mobilização digital organizada por André Janones durante o segundo turno também ganhou espaço na imprensa espanhola. O deputado esteve à frente do canal de WhatsApp conhecido como “Exército do Lula”, utilizado para reunir apoiadores e incentivar o compartilhamento de conteúdos políticos.
A estratégia chamou atenção pelo envolvimento dos participantes, que passaram a divulgar vídeos, mensagens e outras publicações nas redes sociais. O funcionamento do canal foi abordado por veículos espanhóis, entre eles o El País e o HuffPost Espanha.
Na segunda-feira (26), uma reportagem da coluna de Matheus Leitão, no Metrópoles, informou que Janones teria recebido um convite para colaborar com a campanha eleitoral de Pedro Sánchez. Segundo a publicação, ainda seriam discutidos os detalhes da possível participação do deputado, incluindo a viagem à Espanha.
Até o momento, não há confirmação oficial de que Janones tenha aceitado o convite ou de que a colaboração tenha sido formalizada.
Especialista explica por que a mobilização brasileira despertou interesse
Para o professor Mário Tito Almeida, doutor em Relações Internacionais, um dos aspectos que mais chamaram atenção na campanha brasileira foi a capacidade de levar a mobilização das redes sociais para as ruas. Na avaliação dele, a estratégia não se limitou ao compartilhamento de conteúdos, mas também incentivou os participantes a desenvolver novas iniciativas.
“A diferença no Brasil é que esse controle da narrativa das redes sociais acabou gerando também uma manifestação popular. Então você juntou a ideia de perspectiva de redes sociais e, portanto, do controle do algoritmo com também a ocupação das ruas. Eu diria que foi uma estratégia muito bem-sucedida porque juntou o real, diria o concreto, e o digital, fazendo com que as ideias fossem disseminadas de maneira muito rápida”, explicou.
Segundo o especialista, outro elemento importante é a força dos símbolos na comunicação política. Ele considera que o gesto do “L”, inicialmente associado à campanha de Lula, passou a ser utilizado por determinados movimentos de esquerda como uma forma de expressar identificação política.
“A ideia do L no Brasil, que remetia a Lula passou a ser entendida no mundo como uma ideia de resistência, como uma ideia de manifestação do campo progressista”, afirmou.
Mário Tito também avalia que a experiência brasileira despertou interesse por permitir que os próprios apoiadores participassem da construção da campanha. Para ele, a mobilização começa com uma organização inicial, mas ganha novas formas à medida que outras pessoas passam a criar conteúdos e ações por conta própria.
O professor cita a Espanha como um exemplo mais visível dessa repercussão e afirma perceber discussões semelhantes em outros países, como México e França. Na avaliação dele, a comunicação política precisa acompanhar o espaço que as plataformas digitais passaram a ocupar no cotidiano das pessoas, sem abandonar as manifestações presenciais.
“Não basta o mundo só digital e não basta só o mundo real das atividades nas ruas. Você tem que juntar a rua e ciberespaço”, destacou.



