O desgaste econômico no campo pressiona uma das bases mais fiéis do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Partido Republicano diante das eleições de meio de mandato marcadas para 3 de novembro. A votação vai renovar as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 vagas do Senado, definindo as condições políticas para a segunda metade do mandato presidencial. Pesquisa da KFF em parceria com a Associated Press identificou vulnerabilidade entre eleitores rurais insatisfeitos com a condução da economia, sinalizando risco de abstenção que poderia comprometer o desempenho republicano no Congresso.
Dados do Pew Research Center mostram que Trump recebeu 69% dos votos de eleitores que descreveram suas comunidades como rurais em 2024, contra 29% de Kamala Harris, uma vantagem que subiu de 25 para 40 pontos percentuais desde 2016. No entanto, na pesquisa KFF/AP publicada em setembro, 27% dos eleitores rurais republicanos desaprovavam a atuação econômica do presidente. Entre esse grupo, 59% afirmavam ter certeza absoluta de que votariam nas eleições de meio de mandato, ante 79% entre os que aprovavam sua gestão econômica, uma diferença de 20 pontos que revela vulnerabilidade para o partido sem representar, por si só, transferência de votos aos democratas.
Entre os agricultores, o indicador de confiança da Universidade Purdue e do CME Group caiu de 135 pontos em agosto para 123 em setembro. Os insumos mais caros foram apontados como a principal preocupação por 52% dos entrevistados, um recorde da pesquisa. Enquanto 35% esperavam piora na situação financeira de suas propriedades nos 12 meses seguintes, apenas 22% previam melhora. A agropecuária está presente nos 50 estados norte-americanos, conforme registros do Censo Agropecuário de 2022 do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), com concentração no centro do país no chamado Cinturão do Milho.
O peso do custo de vida também aparece nos supermercados, especialmente no balcão de carnes. Na projeção divulgada em outubro, o Serviço de Pesquisa Econômica do USDA estimava alta de 8,7% nos preços médios da carne bovina e de vitelo em 2026, bem acima dos 2,8% previstos para o conjunto dos alimentos. Apesar da pressão na média anual, os preços dessas carnes recuaram 1,3% em setembro frente a agosto. Os Estados Unidos começaram 2026 com 86,2 milhões de bovinos e bezerros, segundo o serviço de estatísticas do USDA, o menor estoque de janeiro desde 1951 conforme análise da Universidade do Arkansas baseada em dados do departamento.
Na frente comercial, as tarifas acrescentam tensão à relação entre o governo e produtores que dependem de compradores externos. Uma análise publicada pela Brookings Institution em outubro associa o enfraquecimento republicano em estados agrícolas à combinação de tarifas, perda de compras chinesas e aumento dos custos de produção. O histórico mostra exposição do setor às retaliações comerciais: estudo do próprio USDA calculou perdas superiores a US$ 27 bilhões nas exportações agrícolas norte-americanas entre meados de 2018 e o fim de 2019, durante a primeira guerra tarifária de Trump, com a China respondendo por aproximadamente 95% dessas perdas.
Desde o início de 2026, associações de produtores alertaram sobre descontentamento com a política agrícola do USDA. Há poucos dias da eleição, o presidente dos Estados Unidos informou que irá liberar US$ 15 bilhões para atenuar eventuais perdas com quebras de safra e custeio de produção. Na última semana de outubro, também anunciou outros US$ 13,7 bilhões em benefícios para financiamento agropecuário. O programa Farmer Bridge Assistance prevê US$ 12 bilhões, dos quais US$ 11 bilhões destinados a pagamentos de transição para produtores de culturas elegíveis e US$ 1 bilhão reservado a outras commodities.



