Derrotado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e sob pressão de duas investigações da Polícia Federal (PF), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tenta assumir a liderança da oposição para preservar o capital político dos quase 60 milhões de votos recebidos no segundo turno e se firmar como principal herdeiro político do pai, Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.
O movimento também pode funcionar como uma espécie de escudo político diante das investigações que enfrenta na Justiça. Proibido de deixar o país e intimado a entregar seus passaportes nesta segunda-feira (26), Flávio terá de lidar com o avanço dos inquéritos num momento em que ficará sem mandato eletivo pela primeira vez em 24 anos, a partir de fevereiro de 2027.
Uma das investigações envolve o financiamento do filme "Dark Horse", sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, com recursos atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A PF apura o destino do dinheiro e se parte dos recursos foi utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro, irmão do senador, nos Estados Unidos.
O outro inquérito investiga suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio e o advogado Willer Tomaz, amigo do senador, por meio de empresas de apostas e plataformas de pagamento. Entre os pontos apurados estão o acesso a uma conta de empresa ligada ao advogado e o custeio de viagens. Flávio nega irregularidades e afirma manter apenas uma relação de amizade com Willer, que também contesta as suspeitas.
O advogado é investigado ainda em um desdobramento da operação da PF sobre descontos irregulares em aposentadorias e pensões do INSS.
Ao comentar a determinação de entrega dos passaportes, Flávio afirmou que foi intimado pela Polícia Federal quando deixava a residência do pai, em Brasília, onde Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar.
Segundo o senador, a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), levou em consideração uma declaração de Eduardo Bolsonaro, feita em 23 de outubro, defendendo que o irmão deixasse o Brasil caso fosse derrotado.
Em entrevista ao podcast americano "CrowderBits", Eduardo afirmou que seria favorável à saída de Flávio do país em caso de derrota eleitoral. "Se meu irmão não ganhar, eu sou a favor de que ele deixe o país com certeza", disse.
Flávio negou que tivesse planos de sair do Brasil, afirmou que cumprirá a determinação judicial e classificou a medida como uma tentativa de intimidação.
No mesmo vídeo divulgado nesta segunda-feira, o senador questionou o resultado da eleição, acusou o PT de promover uma campanha de notícias falsas e anunciou que pedirá a cassação da chapa de Lula por supostos abusos de poder político e econômico.
Flávio também criticou a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que permitiu estender a votação até as 19h em determinadas seções eleitorais, sem apresentar provas de irregularidades capazes de alterar o resultado.
"Não fui eu que perdi, foi o sistema que ganhou", declarou.
Ao anunciar que pretende liderar a oposição, Flávio prometeu reunir deputados e senadores eleitos para organizar a atuação contra o quarto mandato de Lula.
"Eu vou reunir os deputados e senadores eleitos para organizar a nossa estratégia e fazer da Câmara e do Senado a nossa fortaleza contra a barbárie que já está desenhada para acontecer com mais quatro anos de Lula", afirmou.
Apesar da derrota presidencial, o PL saiu fortalecido das eleições para o Congresso e os governos estaduais. O partido elegeu 121 deputados federais, terá uma bancada de 28 senadores a partir de 2027 e comandará seis estados, o maior número entre as legendas.
Essa força oferece a Flávio uma base para tentar exercer a liderança da oposição, mas também impõe o desafio de articular parlamentares e governadores com mandatos e projetos políticos próprios, enquanto ele estará fora do Congresso.
Ao disputar a Presidência, o senador abriu mão de concorrer à reeleição. Eleito deputado estadual no Rio de Janeiro em 2002, exerceu quatro mandatos consecutivos na Assembleia Legislativa antes de chegar ao Senado, em 2019. A partir de fevereiro, perderá a tribuna e a participação direta nas votações, justamente quando pretende fazer do Legislativo o principal espaço de enfrentamento a Lula.
Há ainda um desafio para o próprio bolsonarismo, que terá de reavaliar sua estratégia depois de sofrer a segunda derrota consecutiva para Lula numa eleição presidencial. Apesar da força eleitoral e da bancada robusta no Congresso, o movimento saiu das urnas diante de uma constatação incômoda para a família Bolsonaro. O sobrenome mobiliza milhões de eleitores, mas também alimenta uma rejeição capaz de unir setores políticos que não se identificam com o PT.
Foi justamente nessa rejeição que Lula apostou no segundo turno. Além de mobilizar a militância petista, o presidente buscou votos de eleitores de direita e centro-direita ao insistir que a disputa não era contra os conservadores, mas contra o bolsonarismo. A estratégia ajudou a ampliar seu eleitorado e a reverter a vantagem de Flávio no primeiro turno.
A família Bolsonaro mantém uma parcela expressiva do eleitorado, mas a derrota mostrou que o bolsonarismo não é dono da direita brasileira. Para se consolidar como líder da oposição, Flávio terá de preservar a base fiel ao pai sem afastar os setores da direita que podem apoiar uma agenda de oposição a Lula, mas não necessariamente aceitar o comando político do clã.



