O Comitê de Política Monetária do Banco Central divulga na noite desta quarta-feira (4) sua decisão para a taxa básica de juros do país, a Selic. Até o final de outubro, o mercado projetava um novo corte de 0,25 ponto percentual, o que levaria a taxa de 13,75% para 13,5%, com perspectiva de encerrar o ano em 13,25%.
Com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato, os agentes econômicos começaram a recalcular a rota considerando incertezas fiscais, o prêmio de risco embutido ao país, a desvalorização do real e possíveis choques inflacionários vindouros. Do outro lado, a gestão petista se vê em meio a um impasse: o governo ainda não apontou qual será seu tratamento para as contas públicas e quem será o novo titular do Ministério da Fazenda, o que aumenta a incerteza no mercado.
Não obstante, a bolsa derreteu 18% na semana pós-eleição e seguiu em queda na terça-feira (3) após uma pausa no Dia de Finados. Nessa linha, os juros futuros subiram ao longo de toda a curva com os temores sobre rumos da economia no governo Lula 4.
Mas enquanto o mercado reage com especulação, o BC deve se manter atento e cauteloso, alerta Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos. "A transição pós-campanha introduz uma incerteza que o Copom não pode ignorar, ainda que não deva reagir a especulações antes que elas se materializem em política econômica", escreve Simioni.
Os contratos de opções de Copom negociados na B3 apontam que mais de 70% dos investidores estão se posicionando considerando a manutenção da Selic em 13,75%. E o boletim Focus apurado pelo próprio BC já começa a refletir a virada das expectativas: a mediana do mercado já aponta taxas e preços mais elevados até 2030.
A tese mais aceita no mercado e entre economistas ortodoxos é de que os juros vão se manter elevados à medida que a dívida pública continuar subindo. Nesse sentido, vem a cobrança dos agentes econômicos por uma política de ajuste fiscal crível por parte do governo.
A tensão se acentuou quando começaram a circular rumores de que Lula se reuniria com André Lara Resende. Mesmo com o mercado parado no feriado, a discussão escalou nas redes sociais. "Esse mercado financeiro tem o DNA do autoritarismo", escreveu a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT) no X.
À CNN Brasil, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que o encontro estivesse sendo organizado. Em paralelo, o economista José Sérgio Gabrielli distribuiu um texto na segunda-feira (2) celebrando "o fim do pensamento único" nos debates econômicos e rejeitando políticas de "austeridade contra o eleitor".
O ruído levou o PT a agir para frear especulações de que o governo Lula poderia endossar um "canetaço" na taxa de juros. O caminho encontrado: Lula tem buscado centralizar em Durigan o papel de porta-voz da política fiscal para o quarto mandato.



