Perdas refletem a frustração de expectativas de investidores que apostavam na vitória de Flávio Bolsonaro
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou uma reação negativa nos mercados internacionais nesta segunda-feira (26). Antes da abertura das negociações no Brasil, fundos que acompanham ações brasileiras registraram quedas expressivas no exterior, enquanto contratos de derivativos cambiais indicaram uma possível desvalorização do real diante do dólar.
Um fundo negociado em Nova York, que acompanha o desempenho de ações brasileiras, chegou a cair 27% no pré-mercado. No Japão, um fundo semelhante recuou 15% durante a madrugada, na maior perda diária desde 2008, segundo informações divulgadas pela Bloomberg News.
No mercado de câmbio, contratos negociados na bolsa CME apontaram para uma cotação de R$ 5,55 por dólar. Na sexta-feira (23), a moeda norte-americana havia encerrado o pregão brasileiro a R$ 4,99. A indicação dos derivativos, porém, não representa a cotação oficial do dólar comercial.
Ações de bancos brasileiros também recuam
A reação negativa atingiu empresas com operações no Brasil cujas ações são negociadas nos mercados internacionais. Os papéis da XP e do Itaú Unibanco registraram perdas de pelo menos 26% no início das negociações nos Estados Unidos. Já o Banco Santander e a Telefónica recuaram mais de 5%.
A intensidade das quedas aumentou a preocupação com a abertura do mercado brasileiro. Operadores ouvidos pela Bloomberg esperavam uma sessão marcada por vendas intensas, com possibilidade de acionamento do circuit breaker, mecanismo utilizado para interromper temporariamente as negociações diante de perdas acentuadas.
Na Bolsa brasileira, o mecanismo pode ser acionado quando o Ibovespa, principal índice do mercado de ações do país, registra queda de 10%. Nesse caso, as negociações são interrompidas por 30 minutos. Se o índice atingir uma perda de 15% após a retomada, pode ocorrer uma nova suspensão, conforme as regras da B3.
Mercado revisa expectativas econômicas
A reação dos investidores está relacionada às expectativas que haviam sido formadas antes do segundo turno das eleições. Parte do mercado financeiro apostava na vitória de Flávio Bolsonaro (PL), candidato que era visto por investidores como mais alinhado à adoção de medidas de ajuste fiscal.
Após a liderança de Flávio no primeiro turno, ativos brasileiros haviam atraído recursos estrangeiros diante da expectativa de mudanças na condução das contas públicas. Com a vitória de Lula, investidores passaram a reavaliar suas posições e os riscos associados à economia brasileira.
Uma pesquisa do Citigroup com 73 investidores, divulgada na sexta-feira (23), apontava que a maioria esperava uma queda de pelo menos 5% do real caso Lula vencesse. O levantamento também indicava a possibilidade de alta superior a um ponto percentual nas taxas de swap, contratos utilizados no mercado financeiro para negociar expectativas sobre juros.
Para Bruno Funchal, presidente-executivo da Bradesco Asset Management, a reação reflete a necessidade de revisar as expectativas sobre as medidas que serão adotadas pelo governo. A gestora administra R$ 1,1 trilhão em ativos, segundo a reportagem da Bloomberg.
Contas públicas estão no centro das preocupações
Entre os fatores que influenciam as expectativas do mercado estão o déficit público, o crescimento da dívida e a capacidade do governo de controlar as despesas. Esses elementos também interferem nas projeções para os juros e para o câmbio.
Durante o terceiro mandato, iniciado em janeiro de 2023, Lula adotou medidas de estímulo ao consumo e ampliou a oferta de crédito. A redução do desemprego e o aumento da renda dos trabalhadores também fizeram parte do cenário econômico do período. Ao mesmo tempo, a situação fiscal continuou sendo apontada por economistas como um dos principais desafios do país.
A dívida pública brasileira supera 80% do Produto Interno Bruto (PIB), conforme os dados citados na reportagem original. O orçamento também tem grande parcela comprometida com despesas obrigatórias, o que reduz a margem para mudanças nos gastos públicos.
A combinação desses fatores pode influenciar a avaliação dos investidores sobre o risco dos ativos brasileiros. A desvalorização do real, por sua vez, pode aumentar os custos de produtos e insumos importados e pressionar a inflação.
Apesar da reação inicial, gestores ouvidos pela Bloomberg avaliaram que os preços dos ativos podem passar por um período de ajuste antes de encontrar maior estabilidade. A intensidade e a duração desse movimento dependerão, entre outros fatores, das decisões econômicas e fiscais do governo.



