Lula reduziu a agenda após as eleições e ouve diferentes leituras sobre a economia para o quarto mandato. Um grupo, liderado pelo presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, argumenta que o erro do passado foi o ajuste fiscal e defende acelerar a queda dos juros para impulsionar o crescimento. Outro grupo, com afinidade do ministro Fernando Haddad, atribui os problemas à gestão anterior e acredita que os juros só cairão com confiança nas contas públicas.
A visão de Mercadante encontra amparo na tese de André Lara Resende, que sugere levar a Selic de 13,75% para cerca de 7,5% em um ano e depois mantê-la numa faixa entre 3% e 5,5%, sob a guarda de um novo Conselho Fiscal e Monetário Nacional. Segundo interlocutores, Mercadante gostaria de ver no Banco Central o economista André Roncaglia. Haddad tratou de esfriar o assunto ao dizer que a ideia não está na mesa do presidente, e Edinho Silva, presidente do PT, foi na mesma linha ao lembrar que quem fala pelo governo na economia é o ministro da Fazenda.
Para entender melhor como Mercadante pensa a economia, vale voltar ao jantar de 25 de setembro no Tivoli Mofarrej, quando ele falou mais tempo que o próprio presidente. Naquela noite, tentou passar mensagens que poderiam agradar empresários e investidores. Relido agora, o discurso deixa clara a ordem das prioridades. Ao definir o próximo governo, Mercadante disse que “esse mandato é o mandato do legado, que tem que reduzir os juros, que tem que reformar o país, que tem que avançar no desenvolvimento”. Os juros vinham primeiro, e as reformas depois.
O resto da fala completa o desenho. Mercadante defendeu um Estado indutor e que um terço dos recursos do BNDES continue subsidiado, um tipo de crédito que não sente a Selic e, na avaliação de economistas, obriga o BC a pesar ainda mais a mão sobre o resto da economia. Quando chegou às contas públicas, dividiu a responsabilidade entre União, estados, municípios e Judiciário, porque “não adianta cobrar só da União”. Faltavam ao projeto uma base teórica e um interlocutor dentro do Banco Central. A base pode vir de Lara Resende. O interlocutor, segundo os relatos, seria Roncaglia.



