A crise das gestoras independentes, que já vinha se arrastando há anos, ganhou força com as perdas registradas no dia seguinte ao segundo turno e com a perspectiva de que a taxa Selic permanecerá elevada por mais tempo. Analistas passaram a revisar projeções para a inflação de 2027 e enxergam menos espaço para cortes de juros, o que adia a recuperação esperada por casas que contavam com um cenário mais favorável após a eleição para recompor patrimônio e receitas.
Um levantamento de rentabilidade acessado pelo CNN Money aponta quedas de até 21% entre fundos multimercados da amostra na segunda-feira (26), day after do segundo turno. Nas estratégias com maior exposição à alta das ações, as perdas chegaram a superar 40% em um único dia, acrescentando pressão sobre parte das casas que já enfrentavam dificuldades para atrair investidores.
A MAR Gestora de Recursos anunciou um ajuste estrutural. Em comunicado, o CEO Bruno Coutinho reconheceu resultados abaixo do esperado e informou que haverá redução parcial da equipe para preservar a continuidade da empresa. O executivo escreveu que a gestora se preparou com rigor para um ano decisivo, mas errou nas projeções, e negou planos de encerrar o fundo.
Segundo a nota da MAR, a expectativa de redução do patrimônio sob gestão levou a casa a adequar seus custos e estrutura, priorizando o time macro, responsável pelas estratégias ligadas ao cenário econômico. Coutinho afirmou que continuará à frente da gestão e que seus recursos e os do co-fundador Luis Henrique Moura seguem integralmente aplicados no produto.
A mudança também alcança a estratégia de investimento. O gestor enxerga "anos de CDI alto, com oportunidades específicas" e afirma que a carteira terá menor exposição, com apostas oportunísticas. A dificuldade vem de antes: depois da grande expansão do número de gestoras em 2018 e 2019, o setor enfrentou resultados decepcionantes, juros elevados e concorrência de aplicações com benefícios tributários.
Com uma remuneração atraente disponível em investimentos mais conservadores, fica mais difícil convencer o cliente a assumir riscos e pagar pela gestão. A taxa de administração incide sobre o patrimônio, então quanto menor o volume de recursos, menor é a receita recorrente, enquanto os custos fixos - salários dos profissionais, tecnologia, controles e distribuição - não diminuem na mesma proporção.
Especialistas apontam que o ambiente se tornou especialmente difícil para empresas com menos de R$ 1 bilhão sob gestão. Um gestor que preferiu não ser identificado afirmou que não se consegue sobreviver nem pagar as contas mais. Esse patamar representa a avaliação do profissional sobre a escala necessária para sustentar a operação.
Os dados da Anbima mostram que a saída de recursos de ações e multimercados continua, embora em ritmo menor. Entre janeiro e setembro de 2026, os fundos de ações tiveram resgates líquidos de R$ 10,9 bilhões, enquanto os multimercados perderam R$ 9,3 bilhões. No mesmo período de 2025, as saídas haviam somado R$ 49,6 bilhões e R$ 57 bilhões, respectivamente.
Na direção oposta, a renda fixa captou R$ 136,1 bilhões líquidos nos nove primeiros meses deste ano. A indústria de fundos como um todo registrou entradas de R$ 251,7 bilhões. Há recursos entrando no setor, mas sua distribuição favorece outras estratégias.
Para as casas mais dependentes de ações e multimercados, a recuperação exige melhorar os resultados e reconquistar investidores que encontraram alternativas atraentes na renda fixa. Uma das saídas será operar com estruturas menores, apoiadas principalmente no patrimônio dos próprios sócios, enquanto outras empresas poderão buscar parceiros para dividir despesas e ampliar o acesso aos investidores.
O setor já passou por reorganizações importantes neste ano. Em julho, a Novus Capital anunciou a transferência de suas operações de crédito para a Leto Capital e das estratégias macro para a Occam Brasil. A Solana Capital foi integrada à plataforma Multimesas da Itaú Asset. Já a Gávea anunciou a saída da gestão de recursos de terceiros em multimercados, indicando a Bradesco Asset para assumir os fundos, mediante aprovação dos cotistas.
Outro fator que dificulta a recuperação é a concorrência de produtos isentos de Imposto de Renda para pessoas físicas, como LCIs, LCAs e debêntures incentivadas. Com juros elevados, essas aplicações oferecem retornos líquidos atraentes e aumentam a exigência sobre os fundos.



