A política tem uma relação curiosa com a esperança: ela costuma crescer justamente onde a matemática começa a incomodar. Nas últimas três semanas, a campanha de Lula (PT) conseguiu recuperar terreno, reorganizar sua comunicação, ampliar a mobilização digital e reduzir a distância para Flávio Bolsonaro (PL). Mas há uma diferença importante entre melhorar e conseguir virar uma eleição.
No Datafolha, Lula saiu de 45% das intenções de voto no início do segundo turno para 46% em 22 de outubro. Flávio recuou de 49% para 47%. Entre os votos válidos, a distância caiu de quatro pontos para um empate em 50% a 50%. É um movimento politicamente relevante, mas que precisa ser lido com cuidado: o presidente ganhou apenas um ponto percentual em votos totais, uma oscilação inferior à margem de erro da pesquisa. E, em um conjunto de 17 levantamentos nacionais recentes compilados pelo Poder360, Flávio aparece numericamente à frente em 15. A aproximação existe. A vitória, é mais difícil de ser demonstrada.
O segundo problema é que a pesquisa mede a disposição declarada de votar, enquanto a eleição é decidida por quem efetivamente comparece. No primeiro turno, 33,4 milhões de brasileiros não foram às urnas, o equivalente a aproximadamente 21,1% do eleitorado, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral). É uma população de ausentes suficientemente grande para alterar qualquer projeção, mas que não pertence automaticamente a nenhum candidato.
A distribuição territorial torna a questão ainda mais delicada: o Nordeste, principal reduto de Lula, registrou abstenção de 18,4%, enquanto o Sudeste chegou a 22,7%. Isso significa que uma mobilização indiscriminada dos ausentes não necessariamente favoreceria o presidente. Nas regiões em que há mais eleitores a recuperar, Flávio apresentou desempenho superior no primeiro turno. Para Lula, portanto, não basta reduzir a abstenção nacional. É preciso descobrir onde estão seus eleitores potenciais, por que não votaram e qual a probabilidade real de comparecerem no domingo.
A dificuldade fica ainda mais evidente quando observamos o esforço realizado pelo governo. Desde o primeiro turno, Lula anunciou medidas como a desoneração temporária da gasolina, propostas de renegociação e perdão de dívidas de microempreendedores e a ampliação do Pé-de-Meia. Considerando também iniciativas anteriores, o conjunto de ações anunciado desde agosto tem impacto fiscal potencial estimado em R$ 74,6 bilhões até o fim de 2027. Ainda assim, a recuperação eleitoral permanece modesta.
O problema parece mais profundo do que a insuficiência de benefícios ou de comunicação. Um estudo do Instituto ReDem (Representação e Legitimidade Democrática), com microdados de mais de 460 mil seções eleitorais, não encontrou evidências estatisticamente significativas de que o aumento da abstenção explique a perda de votos de Lula entre 2022 e 2026. O presidente perdeu participação inclusive onde o comparecimento cresceu. Trata-se de uma distinção fundamental: recuperar o eleitor ausente é diferente de reconquistar o eleitor que mudou de preferência. E talvez o maior desafio de Lula seja justamente enfrentar essas duas dificuldades simultaneamente.
É preciso reconhecer, por outro lado, que a campanha petista acertou na reorganização de sua presença digital. O trabalho do deputado André Janones (Rede-MG) merece destaque pela capacidade de mobilização e pela construção de uma engrenagem permanente de circulação de conteúdo. Segundo levantamento da Datrix divulgado pela Folha de S.Paulo, o canal de WhatsApp "Exército do Lula" passou de aproximadamente 50 mil inscritos antes do primeiro turno para mais de 4 milhões em 13 de outubro. Entre os dias 7 e 14, o saldo de sentimento digital sobre Lula melhorou de -20,3 para -2,2 pontos, enquanto Flávio recuou de 28,5 para 9,1. São resultados expressivos, embora a coincidência temporal não permita atribuí-los exclusivamente à atuação de Janones.
A campanha passou a disputar narrativas que antes pareciam monopolizadas pelo adversário. Mas existe um limite para essa conquista: mobilização não é necessariamente persuasão, engajamento não é intenção de voto e intenção de voto não é comparecimento. Uma publicação pode alcançar milhões de pessoas sem acrescentar um único voto líquido ao candidato. A eleição não será decidida pela quantidade de pessoas que compartilham uma mensagem, mas por quantas delas efetivamente atravessarão a porta de uma seção eleitoral.
A situação se torna ainda mais paradoxal porque Flávio Bolsonaro tampouco atravessou o segundo turno sem tropeços. A controvérsia sobre o Bolsa Família, após declarações de sua coordenadora econômica, Daniella Marques, obrigou o candidato a reafirmar publicamente seu compromisso com a manutenção do programa. A defesa de substituir gradualmente determinadas funções de servidores públicos por inteligência artificial também provocou reação e abriu uma frente de desgaste em um eleitorado sensível à estabilidade do emprego. Sua campanha precisou gastar energia explicando propostas em vez de apenas apresentá-las. Mesmo assim, Lula ainda enfrenta dificuldades para converter esses erros em uma vantagem eleitoral consistente.
Há uma diferença entre enfraquecer o adversário e fortalecer a si próprio. Em uma eleição atravessada pela rejeição ao sistema, pela dificuldade de transferência dos votos de terceiros candidatos e pela abstenção elevada, o presidente precisa de mais do que uma boa campanha: precisa transformar esperança em presença eleitoral e aproximação nas pesquisas em votos adicionais. A política ainda permite acreditar em uma virada. A matemática, porém, exige demonstrá-la. Porque, no domingo, a urna não contará os que torceram, compartilharam ou disseram que votariam. Contará apenas os votos de quem apareceu.



