Cinco dias depois da derrota de Flávio Bolsonaro, o deputado federal Nikolas Ferreira gravou um vídeo defendendo boicotes a empresários que apoiaram Lula e afirmou que “a crise que vivemos é, na verdade, uma crise espiritual disfarçada de crise política. Simples assim”. O parlamentar é o mais votado da história do país, eleito aos 30 anos com 3,1 milhões de votos, soma mais de 22 milhões de seguidores no Instagram e já teve um único vídeo com mais de 300 milhões de visualizações.
O sociólogo Mark Juergensmeyer, da Universidade da Califórnia, nomeia como guerra cósmica o momento em que disputas políticas passam a ser descritas como batalhas entre o bem e o mal, fazendo com que o adversário seja visto como inimigo de Deus. Psicólogos ouvidos pela reportagem preferiram não se identificar por receio de ataques nas redes sociais.
A matéria cita pesquisa do Trevor Project publicada no American Journal of Public Health segundo a qual jovens LGBT submetidos a tentativas de mudança de orientação ou identidade, muitas vezes em ambientes religiosos, tiveram mais que o dobro de chance de tentar suicídio. O texto também recorda que Nikolas já subiu à tribuna de peruca para zombar de mulheres trans.
Do ponto de vista da psicologia analítica, Carl Gustav Jung interpretaria o embate não como uma guerra entre crentes e ímpios, mas como um conflito arquetípico entre a Mãe e o Herói. A imagem da Mãe emergiu com a padroeira negra encontrada no rio e ganhou força com a promessa de Flávio Bolsonaro de decretar que o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo.
O lado do Herói é descrito como um Cristo guerreiro sem manjedoura, sem mãe e sem lágrimas, associado à figura do puer aeternus, ou eterno adolescente cheio de ímpeto e pouco enraizado. Durante debates, Flávio fez caretas atrás de Lula na Band e chamou de nove dedos um homem de oitenta anos que perdeu o dedo aos dezessete, sendo obrigado a pedir desculpas depois.
A sombra do grupo apareceu no caso de Ana Clara, menina de cinco anos morta por um tiro de fuzil em Niterói, cujo policial acusado teve Flávio entre seus advogados. No último debate, a mãe da criança estava na plateia de Lula e foi chamada pelo nome da filha morta por Flávio.
Pastores como Ed René Kivitz e Caio Fábio defendem que Jesus seria um homem periférico se vivesse hoje e que o Evangelho é graça, não projeto de poder. O texto conclui que diferentes expressões religiosas e quem não crê merecem o mesmo respeito, independentemente da visão política.



