A crise bancária e política no Paraguai tem baixo potencial de contágio para o sistema financeiro brasileiro, mas pode afetar o comércio e os investimentos de empresas nacionais no país vizinho. O principal risco é que a perda de confiança nas instituições paraguaias provoque uma restrição de crédito, prejudique a atividade econômica e leve investidores a adiar projetos.
O Paraguai tornou-se um destino importante para empresas brasileiras atraídas por custos de produção menores e vantagens tributárias, especialmente nos setores de autopeças, têxteis e manufaturados. Entre janeiro e setembro de 2026, a corrente de comércio entre os dois países movimentou US$ 5,84 bilhões, sendo US$ 3,19 bilhões em exportações brasileiras e aproximadamente US$ 2,65 bilhões em importações de produtos paraguaios, resultando em superávit comercial de cerca de US$ 540 milhões para o Brasil.
Uma crise prolongada pode reduzir a demanda por produtos brasileiros, dificultar pagamentos e afetar empresas que integram cadeias produtivas dos dois países. No sistema financeiro, o risco direto também parece limitado, pois não há evidências públicas de exposições interbancárias capazes de transmitir a crise paraguaia de maneira relevante aos bancos brasileiros.
O Paraguai possui regras de capital e liquidez, fiscalização do Banco Central e um fundo garantidor de depósitos, mas sua estrutura de supervisão é menos consolidada que a brasileira. O Banco Central do Brasil opera com regras prudenciais alinhadas aos padrões internacionais de Basileia III e dispõe de mecanismos mais desenvolvidos de monitoramento de riscos e resolução de instituições financeiras.
O sistema bancário paraguaio é multimoeda, com depósitos e operações denominados tanto em guaranis quanto em moedas estrangeiras, principalmente dólares, o que exige atenção adicional à gestão de liquidez e aos riscos cambiais. Apesar disso, em maio de 2026 os bancos paraguaios apresentavam índice de capital regulatório de 17,3%, acima do mínimo exigido de 12%, inadimplência de 2,6% e rentabilidade sobre o patrimônio de 19,3%.
A turbulência teve origem no colapso do Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras digitais do Paraguai, com cerca de 3 milhões de clientes. O banco apresentou rápida deterioração financeira, com o índice de solvência caindo para 5,56%, menos da metade do mínimo regulatório de 12%, além da concentração de empréstimos em empresas ligadas aos controladores.
O Ueno também concentrava cerca de US$ 850 milhões em recursos de instituições públicas, incluindo fundos previdenciários. Eventuais perdas podem gerar custos fiscais dependendo da recuperação dos ativos. O episódio atingiu diretamente o governo de Santiago Peña, que foi acionista do grupo controlador do banco até 2025 e nomeou um ex-dirigente da instituição para a presidência do Banco Central.
As suspeitas de irregularidades, ainda sob investigação, provocaram a saída de autoridades monetárias e abriram caminho para um processo de impeachment contra Peña. O principal desafio econômico do Paraguai agora é impedir que a crise se espalhe para o restante do sistema financeiro.
Para os investidores, o episódio coloca em dúvida a eficácia da fiscalização bancária e a independência das instituições. A capacidade do país de restabelecer a confiança será determinante para evitar que a crise política comprometa o crédito, os investimentos e o crescimento econômico.



